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A identidade da mulher

Quando uma mulher se consciencializa de si mesma, enquanto mulher apenas pode ver e entender que a origem de quase todos os seus dramas tem a ver com a divisão da mulher em duas ou mais, facetas secundárias e a forma como a sociedade a olha. Ela só pode perceber a sua ferida interior – seja ela proveniente da má mãe, seja da má relação com a irmã, a amiga, a sogra – quando perceber que essa divisão da sua psique existe e que, no fundo, é quase sempre essa divisão interna a origem dos seus conflitos, assim como nas outras mulheres. Não são só as feridas provocadas pelos homens que marcam e ferem as mulheres mas sim, basicamente a ferida com a mãe, e é a partir daí que ela pode ver, não só com a sua cisão, mas também integrar a verdadeira mulher, a mulher inteira é feita, porque a outra que ela acusa já não é uma outra fora de si, mas ela mesma também.

Também a nível sexual, sem que a mulher resolva a sua questão interior de ser mulher em si, integrando as duas mulheres fundidas, ela não poderá saber quem é ou se deseja mulheres, homens ou ambos, porque é sempre uma metade. Para que isso aconteça a mulher precisa crescer e deixar de ser a menina infantil ou a criança mimada que se refugia nos braços do pai amante – a negação da má mãe, e enfrentar a sua sombra, sendo responsável pelas suas escolhas, porque sem ter essa consciência da sua essência mulher e da sua sexualidade feminina, do seu prazer como mulher madura, ela pode iludir-se, seja perante o homem que a protege, seja perante uma mulher forte, mais yang que a atraia ou a domine emocionalmente. 

Tal como acontece a maior parte das vezes com o homem, que quase sempre procura na mulher amada a mãe, a mulher também procura a mãe que não teve, que amou ou detestou, procurando em muitos casos o colo da mãe até no homem, mas não tendo consciência disso. Só depois da mulher ter essa consciência dessa fusão em si mesma e começar a integrar a sua outra parte, e, ao assumir a sua totalidade como mulher, como um ser ciente da sua natureza profunda, em termos ontológicos, é que a mulher pode sentir-se inteira e amar as outras mulheres como a si mesma, independentemente de amar, ou desejar, mulheres ou homens. 

“O primeiro objecto de amor para mulheres e homens é a mãe, mas no patriarcado, o filho tem de rejeitar a mãe para ser capaz de dominar a esposa como “um homem de verdade”, e a filha deve traí-la para se “submeter a um homem”. Na sociedade matriarcal, esse duplo fardo de traição biológica espiritual não ocorre. 

Tanto para as mulheres como para os homens, existe uma estreita identificação com o grupo colectivo de mães, com a Mãe Terra e com a Mãe Cósmica. E, como os psicanalistas continuam a repetir, essa identificação é propícia à bissexualidade em ambos os sexos. Mas a homossexualidade em termos pagãos não se baseava na rejeição da Mãe, ou da mulher, como na cultura patriarcal, era baseada no amor de irmão, irmão afinidade como filhos da mãe. E o lesbianismo entre as mulheres não se baseava no medo e rejeição dos homens, mas no desejo da filha em restabelecer a sua união com a Mãe e com a sua própria feminilidade. O colectivo de mães, identificado por filhas e filhos, era formado por mulheres fortes, criativas produtoras, sexualmente livres e visionárias. E assim o ideal de feminilidade, para ambos os sexos, não era a submissão forçada e estúpida dos oprimidos, como na cultura patriarcal.” por Mónica Sjoo e Barbara Moor, em A Grande Mãe Cósmica. 

Esta questão abordada da mulher nada tem a ver com a questão redutora do sexo. 

A sensualidade existe nas relações e na vida. A sensualidade como emoção erotizada existe no amor mais puro, neutro, entre todos os seres. É natural que até as crianças a sintam, mas não tem de ter conotações sexuais. O amor é bem mais vasto e incompreensível, e não há amor impuro a não ser quando tomamos por amor qualquer relação abjecta, tendo a mulher ou o homem como mero objecto de prazer, seja em que caso for…

É aqui que urge uma nova visão do ser humano e cabe à mulher neste domínio uma grande responsabilidade, porque uma mulher que aprenda a amar-se a si mesma e a ser ela mesma uma pessoa inteira, uma alma, e não apenas um corpo ou um sexo de prazer, ela deve respeitar-se acima de tudo e pode amar as outras mulheres, e isso não significa que tenha de as amar sexualmente.

Amar, pois, outra mulher a partir de si mesma não é ter de ser lésbica, é ser apenas Mulher, tal como se ama uma criança e não se pensa em sexo. Ser Mulher é ser integral e completa em si mesma.

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